A magia e a força de brincar no serviço de acolhimento

“Cada pulo no trampolim, cada partida de futebol, cada roda de cantigas é uma chance de curar feridas invisíveis”

Por Rosangela de Jesus*

Muito mais do que gastar energia ou passar o tempo, brincar é viver. É sorrir com o corpo todo, é aprender sem perceber, é se sentir livre para imaginar e criar.

No serviço de acolhimento, onde muitas crianças e adolescentes chegam carregando histórias de dor, rupturas e mudanças, o brincar se torna um respiro de esperança, um abraço silencioso que diz: “Aqui você pode ser criança”.

O brincar como direito e como cura

O Estatuto da Criança e do Adolescente nos lembra: toda criança tem direito ao lazer, à cultura, ao convívio saudável. No acolhimento, o brincar ultrapassa o direito — ele se torna também um cuidado, um remédio para a alma. Cada pulo no trampolim, cada partida de futebol, cada roda de cantigas é uma chance de curar feridas invisíveis, de reconstruir a confiança no mundo e nas pessoas.

O brincar como espaço de vínculo

Quando um educador se abaixa para entrar no mundo da criança, ele não está apenas jogando bola ou montando um quebra-cabeça — ele está dizendo: “Eu vejo você, eu estou com você”.

No brincar, as barreiras caem. Crianças e adolescentes se aproximam uns dos outros, sentem-se parte de algo, constroem laços de amizade e companheirismo. Esses momentos ficam guardados para sempre como pequenas luzes que iluminam o caminho da vida.

O brincar como resgate da infância

Para muitos acolhidos, a infância foi interrompida cedo demais. O brincar oferece a chance de resgatar aquilo que ficou pelo caminho: o riso solto, o faz de conta, a sensação de que o mundo é um lugar onde ainda se pode sonhar.

No acolhimento, cada brincadeira é um lembrete de que eles não são definidos apenas pelo que viveram, mas também pelo que ainda podem viver.

Ser orientador socioeducativo, cuidador ou técnico em um serviço de acolhimento é também ser guardião desses momentos. É estar disposto a largar por um instante as preocupações e se permitir correr, pintar, cantar, inventar histórias. É entender que, muitas vezes, uma tarde de brincadeiras vale mais do que mil discursos, porque fala diretamente ao coração.

Brincar é semear futuro. É plantar confiança, alegria, autoestima e amor-próprio no coração de cada criança e adolescente.

No serviço de acolhimento, o brincar não é apenas parte da rotina — é uma forma de transformar vidas. Cada vez que uma criança sorri durante uma brincadeira, é como se dissesse para o mundo: “Eu ainda acredito”. E é aí que percebemos que nosso trabalho não é apenas cuidar, é também devolver a chance de sonhar.

 

*Rosangela de Jesus é assistente social e gestora do Saica 1 da Casa da Criança e do Adolescente de Santo Amaro (CCASA)

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