Além do abrigo

A importância do trabalho socioeducativo no acolhimento institucional

Por Brenna Laís da Silva*

O acolhimento institucional para crianças e adolescentes é, por natureza, um espaço de proteção e cuidado em momentos de vulnerabilidade – as crianças e adolescentes para lá são encaminhadas por medida protetiva. Seriam funções do acolhimento oferecer um teto e alimentação? Claro! Mas não apenas. Para os sujeitos acolhidos em uma instituição se desenvolverem plenamente e construírem um futuro com dignidade, um trabalho socioeducativo de qualidade é fundamental.

Um acolhimento institucional (referência) não cuida apenas, educa para a vida. Crianças e adolescentes não seriam vasos a ser preenchidos, mas sementes a ser regadas para florescer. O que significa ir além das necessidades básicas? Oferecer estímulos para o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e moral.

Os acolhimentos institucionais (Saicas), por norma, devem ter equipe técnica composta por assistente social, pedagogo e psicóloga, além de um time de orientadores socioeducativos. Todos atuam com vistas a reintegração familiar ou, quando isso não é possível, a vida autônoma e em sociedade. Trata-se de um processo complexo, que envolve tanto o empenho e dedicação da equipe como articulações com as políticas setoriais e intersetoriais.

Vygotsky nos lembra que o desenvolvimento humano é mediado pelas interações sociais e pela cultura. Nesse sentido, o ambiente do acolhimento deve ser rico em oportunidades de interação, aprendizado e participação social. Isso inclui:

  • Estímulo ao desenvolvimento cognitivo como apoio escolar e atividades lúdicas e pedagógicas que desenvolvam raciocínio, criatividade e senso crítico.
  • Apoio emocional por meio de conversas e acolhimento – as crianças e adolescentes precisam se sentir seguros, ouvidos, respeitados e protegidos já que, de forma geral, chegam com essa base muito fragilizada.
  • Desenvolvimento de habilidades sociais com atividades específicas para ampliar recursos e repertórios que propiciam uma boa convivência em grupo – estímulos para resoluções de conflitos, comunicação não violenta e empatia. O trabalho socioeducativo deve buscar incutir na mentalidade dos acolhidos: “Sou capaz de superar desafios, desenvolver habilidades, adquirir autonomia e ser protagonistas de minha própria história”.
  • Orientação para o mundo do trabalhoponto esse que é uma preocupação da CCASA – a fim de prepará-los para a vida profissional. Isso se dá por meio de cursos, oficinas, workshop e vivências no mundo do trabalho que promovam autonomia e independência.

Fica notório, portanto, o quanto o trabalho socioeducativo agrega ao processo de aquisição de recursos internos e externos para que crianças e adolescentes transformem a sua própria realidade. Devemos trabalhar intencionalmente e diuturnamente nesse sentido, é assim que o empoderamento e o protagonismo desses sujeitos se manifestará.

Investir no trabalho socioeducativo dentro dos serviços de acolhimento transforma vidas, reescreve futuros de crianças e adolescentes, e consequentemente, da sociedade. Ao oferecer ferramentas para o desenvolvimento integral, diminuímos as chances de reincidência em situações de vulnerabilidade, principalmente na fase de transição do acolhimento para a vida adulta, que é um dos momentos mais delicados. A construção com base socioeducativa é o pilar que sustenta essa travessia. Como afirmou Jean Piaget: “O principal objetivo da educação é criar indivíduos capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente repetir o que outras gerações fizeram”.

É missão de todos nós, profissionais do setor de assistência social, enxergar e despertar a potência de cada acolhido.

 

*Brenna Laís da Silva – psicóloga com especialização em Psicologia Social e pós-graduada em Políticas Públicas – é a gestora do Saica 2 mantido pela CCASA.

Deixe um comentário