A cooperação entre os setores de assistência social, saúde e educação é indispensável
Por Valéria Gerolamo*
No dia 4 de agosto, participei de uma reunião na Diretoria Regional de Educação (DRE) Santo Amaro para discutir os primeiros passos da construção do novo Plano Municipal de Educação de São Paulo, que orientará a política educacional da cidade até 2037. No dia seguinte, recebi o convite para integrar a Comissão da Conferência Municipal de Educação como representante da comunidade pela Casa da Criança e do Adolescente de Santo Amaro (CCASA). Aceitei na hora.
Não foi um gesto protocolar, trata-se de uma convicção que carrego há anos, reforçada por décadas trabalhando com gestão — no setor privado e, mais recentemente, à frente de uma organização que acolhe e protege crianças e adolescentes em situação de risco social –: educação não se transforma de dentro para fora a partir de um único setor, ela se transforma quando setores diferentes decidem trabalhar juntos.
A Secretaria Municipal de Educação iniciou, com a Instrução Normativa nº 26, um processo que vai até março de 2027 e inclui formação de comissões regionais, seminários temáticos, conferências regionais em novembro de 2026 e a Conferência Municipal no início de 2027. É um processo participativo, que convoca professores, famílias, especialistas, sindicatos e sociedade civil. É também uma oportunidade concreta — e rara — de se sentar à mesa antes de o plano estar pronto, não depois.
Acredito que, para essa mesa funcionar de maneira efetiva, os setores de educação, saúde e assistência social devem participar dela nela ao mesmo tempo. Não é retórica, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já prevê essa articulação: o Sistema Nacional de Educação (SNE), o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) existem para operar em rede. A Busca Ativa Escolar, por exemplo, que já funciona em São Paulo, mostra o que acontece quando uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e uma escola trocam informação sobre uma criança prestes a evadir ou que já evadiu: ela volta a estudar. Isso mostra que o problema não é falta de instrumento legal, é falta de práticas sustentadas para se trabalhar junto.
Enquanto isso, os números continuam contando uma história difícil de ignorar. O Brasil investe hoje cerca de 4,9% do PIB em educação — pouco mais de 4 mil dólares por aluno ao ano, enquanto a média é de 11,5 mil dólares nos países da OCDE. A Coreia do Sul, que saiu da pobreza extrema do pós-guerra e se tornou uma das maiores economias do mundo, investe 7,6% do seu PIB em educação, priorizando a base antes do topo: para cada dólar que vai para o ensino básico, 1,5 dólar vai para a educação superior (para compararmos, a média dos países desenvolvidos é de 1,70, e o Brasil chega a gastar mais de 3,70 dólares no ensino superior para cada dólar na base). A Finlândia fez uma reforma estrutural há quarenta anos, e hoje é citada como referência em qualquer conversa sobre o tema. Nenhum dos dois países mudou de patamar por acaso. Mudaram porque trataram educação como prioridade de Estado, sustentada por mais de um governo, não como bandeira de uma gestão.
O novo Plano Nacional de Educação sinaliza um caminho parecido — 7% do PIB até 2031, 10% até 2036 —, mas meta em lei não é meta cumprida. Depende de quem governa entender que essa é uma escolha que atravessa mandatos, e de quem está fora do poder público continuar cobrando, participando, ocupando os espaços que existem para isso.
Tem também um ponto que me toca de perto na Casa da Criança: formação de professores e inclusão. O número de crianças com TEA matriculadas na rede pública cresceu 50% em um único ano; segundo o Censo Escolar; o país já tem 2,4 milhões de pessoas autistas identificadas. A formação inicial de professores segue, na maior parte, sem preparo real para a neurodivergência e as diferentes formas de aprender. Não se resolve isso com boa vontade, mas com investimento continuado em quem está na sala de aula, com metodologias diferentes para crianças diferentes e com a convicção de que inclusão não é exceção, é o modelo.
Não vejo futuro para o País se não investirmos nesta geração. Não é uma frase de efeito, ela é fruto da soma do que vejo todos os dias na CCASA e do que os dados, de novo, confirmam. Educação de qualidade não depende só de mais dinheiro, embora dependa também disso. Depende de professores bem formados, de crianças neurodivergentes verdadeiramente incluídas, dos equipamentos de saúde e assistência social andando ao lado da escola e de governantes com visão de longo prazo — e coragem de sustentá-la além do próprio mandato.
A comissão que vou integrar é pequena diante do tamanho do problema. Mas não estamos sozinhos nisso: dezenas de cidades brasileiras — Embu das Artes, Aracaju, Belo Horizonte, Teixeira de Freitas, entre tantas outras — estão neste exato momento construindo seus novos planos municipais de educação pelo mesmo caminho participativo, coordenado nacionalmente pelo Fórum Nacional de Educação. Fazer a conferência já é regra. O que vai diferenciar essas experiências é se cada plano vai sair do papel com investimento sustentado, com educação, saúde e assistência social trabalhando de fato juntas e com continuidade que atravesse mandatos. É nisso que quero ajudar a fazer a diferença em Santo Amaro.
*Valéria Gerolamo é Gerente Geral da CCASA e suas áreas de especialidade são gestão estratégica e operacional. Atua também como conselheira no Inspire, contribuindo com a experiência que acumulou em governança e impacto social. Sua sólida trajetória em marketing e vendas – trabalhou na P&G, Eccelera e Duplo Efeito – alia visão empresarial à gestão do terceiro setor.